Author: admin

  • Memória

    Houve uma época, quando eu era adolescente, que minha família descobriu que a Remmar, uma padaria da minha cidade fazia excelentes pizzas.

    Virou nossa pizzaria favorita, e um ou dois domingos por mês, depois do culto, costumávamos ir até lá para comer.

    Um dia, no meio de toda aquela conversa entre os pais e amigos, mesas de plástico e Daniel, provavelmente, implicando com alguém, eu disse ao meu irmão mais novo, Guilherme, que não importava o que ele fizesse, ele nunca lembraria daquele dia.

    Isso, porque eu não lembrava de nada de quando eu tinha a idade dele. Guilherme ficou revoltado, talvez ofendido com tal proposta. Então, disparou em tentar provar que conseguiria.

    “Não, você não vai lembrar.”

    “Vou!”

    “Então, tá”, me inclinei sobre a mesa e continuei em um tom quase autoritário, com o dedo apontando para ele, “você vai guardar este momento na sua memória! E, algum dia, no futuro, eu vou te cobrar de lembrar”.

    Apertamos as mãos e, sinceramente, não lembro muito do que aconteceu depois, naquela noite.

    Mas, muitos anos depois, ambos já adultos, estávamos reunidos em algum lugar. A memória daquele dia na pizzaria voltou num estalo. Era agora.

    “Guiga!”

    “O que foi?”

    “Lembra?”

    Com o rosto confuso ele só conseguiu balbuciar, “lembra?”. Cada segundo que gastamos tentando resolver uma charada como essa, valem por mil. A mente acelera e, mesmo que para ele deva ter demorado um pouco. Para mim, do nada, vejo seu rosto brilhar!

    João é irmão mais velho.

  • Solidão

    Existe uma história que costumo contar para as pessoas. Delas, recebo reações diversas, de graça à pena.

    Mas, quando eu tinha 18 anos de idade. No fim do meu primeiro ano morando sozinho no Rio de Janeiro. Já morava em Vila Isabel, divindo quarto com o Rodolfo, na república da Dona Cheila.

    Lembro que estava sozinho. Talvez o Rodolfo tivesse ido visitar sua família. Mas sua ausência é um fator irrelevante.

    Porque, naquele dia, deixei a TV ligada enquanto fazia algo no computador, quando passou a propaganda da Sadia daquele ano.

    Como sempre, com a mesma música:

    “É bom saber que alguém te ama de verdade.”

    Uma lágrima escorreu no meu rosto.

    João é uma alma solitária.

  • Palavrão

    No início deste ano, a Zoé começou a estudar em uma escola pública.

    A ideia nasceu comigo. Há meses, eu vinha falando para a Karina como era importante que ela se desenvolvesse longe de filhos de gente rica. Que era danoso ela crescer em escolas particulares. Que eu e ela nos saímos muito bem estudando a vida toda em escola pública etc.

    Mas eu estava errado em não olhar para o outro lado da moeda.

    Crianças de escola pública vêm de ambientes com menos controle e proteção, são expostas à sexualização desde cedo e à muita agressão.

    Tem sido complicado ver a Zoé trazendo histórias, gírias e trejeitos que não gostaria que ela tivesse tão cedo.

    Ao mesmo tempo, faz parte da vida, sermos expostos à situações sociais que disrompem nosso ambiente familiar e nos moldam para sermos quem somos. Sujeitos independentes dos nossos pais e da nossa cultura familiar.

    Como o Abujamra provocava, “Ser pai é dominar a arte de fazer-se desnecessário”, então tento abrir o coração para o que for vir, dando meus toquinhos para que ela chegue lá com o mínimo de dor possível.

    Ontem, ela me chamou, na hora de fazer cocô, e me contou que as meninas da sala falaram palavrões para os meninos, porque eles não gostam de palavrão.

    Meu coração estremeceu. Pensei, “que droga, mais essa ainda!”. Embora eu xingue, sei que vindo da escola a influência é diferente.

    Ela continuou, “quer saber qual palavrão elas falaram?”. Estremeci de novo.

    “Bosta de bunda!” – Agora, tive que me segurar para não rir, aliviado que era só isso. Consegui não perder a compostura.

    “E elas disseram outro palavrão também. Quer saber qual?”

    Então eu pensei, “agora vai, ela vai soltar um ‘caralho’”.

    Então, ela concluiu: “Bunda cagada”.

    João é pai.

  • Dança

    Neste feriado, estava trabalhando nos meus projetos enquanto a Karina fazia o almoço. Mas antes disso, a Karina colocou música brasileira para tocar.

    Em algum momento, parei e fui para a sala.

    A Zoé estava dançando um forró com a Zoézinha.

    Sem falar nada, eu peguei ela no meu colo e comecei a dançar com ela. Que se aconchegou no meu peito e embora não tivesse os pés no chão, também dançava, em pleno silêncio.

    De repente, ela derrete no meu colo, olha pra mim com ternura e diz “eu te amo, papai”.

    João é amado.

  • Lembrança

    Essa semana eu lembrei de uma coisa.

    Depois de passar por um prédio em estilo neoclássico, no Jardim Paulistano, lembrei da sensação de ter todo um prédio, com várias pessoas trabalhando para mim nele.

    Não acredito em vidas passadas, então não deve ser algo assim.

    Gostaria que fosse uma habilidade preditiva inata, me mostrando meu futuro e que eu devo ficar tranquilo em relação à ele.

    Mas temo que seja uma imaginação muito fértil, fatigada e pouco exercitada.

    As coisas não vão bem no trabalho. Sinto-me insuficiente metade do tempo. A outra metade, sinto estar sendo sabotado, para me fazer sentir ainda pior.

    A única vez que tive a energia tão baixa foi quando estava deprimido por ter falido pela primeira vez.

    Mas esse vislumbre imaginativo me acendeu uma fagulha de esperança. Bem pouca esperança. A fagulha não conseguiria iluminar nada na escuridão completa do que tenho passado. Mas senti um pouco do seu calor.

    Senti que seria apenas questão de trabalhar mais. De novo, mais do que todos à minha volta. Porque gente da minha casta, se parar, cai no chão novamente.

    Que seria como foi um dia, quando dei a volta por cima e, em pouco tempo, ganhava dez vezes o que deixei para trás.

    Espero que tudo isso passe. Que eu olhe, em breve, da janela do meu próprio prédio. Roupa social, relógio no pulso, mão no bolso, possivelmente estressado com algo, mas feliz e relaxado em relação ao futuro.

    João tem uma fagulha fraca de esperança.

  • Benção

    Hoje, foi meu primeiro dia de férias depois de muito tempo.

    Eu dormi o tanto que eu quis.

    Acordei para estar com minha família. Beijei minha esposa e brinquei com a Zoé a manhã inteira.

    Almocei uma comida deliciosa que a Karina preparou para a gente.

    Levamos a Zoé para a escola, voltamos direto para malharmos juntos na academia.

    Malhamos, subimos para casa, tomamos banho juntos e transamos debaixo do chuveiro.

    À tarde, a Ka foi dar aula e trabalhei nos projetos que eu realmente gostaria de estar trabalhando.

    Ao final da tarde, a Karina voltou da rua com a Zoé e o Bruno.

    Tomamos um café da tarde delicioso.

    Levamos a Zoé para a sua apresentação da natação, e eu a vi sendo incrível. Perfeita. A melhor de todos naquela piscina, e melhor do que eu jamais conseguiria imaginar que a minha filha poderia ser, quando eu apenas sonhava em ter uma filha.

    Voltando de carro para casa, o carro que eu sempre sonhei em ter, a Zoé pega no sono.

    Chegamos em casa, eu e a Karina.

    Curtimos nossa noite juntos e assistimos ao episódio de uma série que eu esperava voltar há um ano.

    Nos preparamos para ir para a cama, e a beijo novamente.

    Ela deita para dormir, mas eu ainda precisava fazer uma coisa ou outra.

    Vou até a varanda do apartamento com o meu cachimbo, admirar a lua.

    Ela está amarela, apenas acompanhada no céu por Júpiter.

    A força da lua quase me puxa para ela. Precisei me segurar no parapeito para não voar pelo espaço.

    Na noite que conheci a Karina, um morador de rua me segurou pelo rosto e disse que eu tinha “o axé de Deus”. Só assim para explicar quão sortudo eu sou.

    João tem o axé de Deus.

  • Arte

    Tenho me sentido entediado. Sinto saudade de criar e ter dezenas de projetos e hobbies. Mesmo que fiquem só no plano das ideias.

    A vida adulta não permite nem, ao menos, isso. Existem muitas barreiras à minha frente, mas meu trabalho é a principal. Ele suga minha preenchida criativa. Nele, não crio tanto quanto antigamente. Estou num cargo alto, numa startup promissora, que teima em não estourar, mas mesmo estourando, o desafio continua o mesmo: Manutenção do que já criei.

    Nos últimos dois meses, eu tenho vagado a pensar o que eu deveria fazer a seguir. E não cheguei a nenhuma grande conclusão. Imaginei desenvolver o App que nasceu a partir de um trabalho de faculdade da Ka; Pensei em criar jogos e em animar um longa-metragem.

    Seria bom ganhar muito dinheiro, não precisar trabalhar para pagar as contas e apenas investir meu tempo nas coisas acima. Sonho meu.

    Acabei de criar um novo objetivo de vida. Até o dia da minha morte, criarei uma grande peça para cada tipo de arte.

    João Brasileiro (@jottafernandes) October 2, 2019

    Daí então, me lembrei deste tweet hoje. Não tenho preferência por nenhum tipo — talvez apenas deixaria escultura mais para frente — e vou organizar meus esforços de forma caótica. Vou sortear a ordem das coisas que devem ser feitas e vou me esforçar para conseguir terminá-las antes de começar qualquer outra coisa.

    Quer saber? Vou fazer isso agora.

    A lista, que fiz usando random.org/lists, ficou assim:

    🗨️ Historia em quadrinhos
    🖥️ Arte digital
    🎨 Pintura
    🎹 Música
    🎮 Video Games
    🏛️ Arquitetura
    📖 Literatura
    🗽 Escultura
    🎥 Cinema
    📸 Fotografia
    🎭 Artes cênicas

    Será que terei tempo de vida o suficiente para terminar tudo isso?

    João tem 28 anos.

  • Tamanho

    Não sei se por efeito do meu nome Paulo, ou porque só fui crescer quase que no fim do primeiro ano da faculdade, mas sempre me senti um homem pequeno.

    Mesmo não lembrando a última vez que passei por qualquer situação constrangedora (ou não) que evidenciasse minha estatura, como aquelas malditas filas no colégio por ordem de altura, eu ainda me sinto pequeno.

    Talvez seja porque ainda sou magro.

    A vida é difícil com todo mundo. Mas eu sou bom candidato para quem quiser ouvir o que ser baixo e magro por tanto tempo pode fazer com a personalidade de um garoto.

    Ouvir coisas como “Você é mais bonito que fulano. Mas te falta confiança.” Como eu sonhei em ter essa tal confiança. E como conselhos, mesmo na melhor das intenções, são tão diluídos na realidade da vida.

    Mas hoje, minha filha, de duas semanas de vida, dormiu de barriga para baixo sobre meu peito esquerdo, meu gato se acomodou sobre minhas pernas e, depois do banho dela, minha esposa deitou-se sobre meu peito direito. Senti-me um gigante.

    João tem 1,75m.

  • Passado

    Por volta de 2013, eu criei um blog protegido por senha para postar textos, ilustrações e fotografias que me representavam honestamente. Lá eu escrevi todos os meus defeitos e o quê eu acho deles; opinava matérias, letras de músicas e tirinhas.

    A única coisa que realmente prestava e me marcou naquele blog foi eu ter criado um texto autobiográfico. Eu começava dizendo:

    Tenho 21 anos e nunca fui à guerra…

    Nele, eu falava de todas coisas que eu não havia feito. Dos amores que não havia vivido, das comidas que não experimentei, dos amigos que eu não mantive; falava também sobre o que eu acreditava e como, no final das contas, eu faria tudo de novo, porque aquilo tudo havia me levado a ser quem eu era.

    Típica iluminação espiritual de um jovem de 21 anos.

    No ano seguinte, com 22 anos, eu copiei todo o texto, alterei minha idade, e fui riscando todas as coisas que já não eram mais verdade. Aos 24, era um texto todo riscado. Aos 25, eu percebi que nem a parte que dizia que “faria tudo novamente” era verdade.

    A vida é passageira. A morte se aproxima, rápida. E provavelmente, o sentido da vida seja a perpetuação da espécie. Um ciclo químico perene, até o minguar do universo.

    Nada que vou escrever daqui para a frente é realmente importante. Continue lendo por responsabilidade própria.

    João tem um plano.