No início deste ano, a Zoé começou a estudar em uma escola pública.
A ideia nasceu comigo. Há meses, eu vinha falando para a Karina como era importante que ela se desenvolvesse longe de filhos de gente rica. Que era danoso ela crescer em escolas particulares. Que eu e ela nos saímos muito bem estudando a vida toda em escola pública etc.
Mas eu estava errado em não olhar para o outro lado da moeda.
Crianças de escola pública vêm de ambientes com menos controle e proteção, são expostas à sexualização desde cedo e à muita agressão.
Tem sido complicado ver a Zoé trazendo histórias, gírias e trejeitos que não gostaria que ela tivesse tão cedo.
Ao mesmo tempo, faz parte da vida, sermos expostos à situações sociais que disrompem nosso ambiente familiar e nos moldam para sermos quem somos. Sujeitos independentes dos nossos pais e da nossa cultura familiar.
Como o Abujamra provocava, “Ser pai é dominar a arte de fazer-se desnecessário”, então tento abrir o coração para o que for vir, dando meus toquinhos para que ela chegue lá com o mínimo de dor possível.
Ontem, ela me chamou, na hora de fazer cocô, e me contou que as meninas da sala falaram palavrões para os meninos, porque eles não gostam de palavrão.
Meu coração estremeceu. Pensei, “que droga, mais essa ainda!”. Embora eu xingue, sei que vindo da escola a influência é diferente.
Ela continuou, “quer saber qual palavrão elas falaram?”. Estremeci de novo.
“Bosta de bunda!” – Agora, tive que me segurar para não rir, aliviado que era só isso. Consegui não perder a compostura.
“E elas disseram outro palavrão também. Quer saber qual?”
Então eu pensei, “agora vai, ela vai soltar um ‘caralho’”.
Então, ela concluiu: “Bunda cagada”.
João é pai.
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